Desde pequena, ao conviver com uma mãe insone, tinha medo de não dormir. No entanto, o meu “problema” era outro: minha mãe falava que eu dormia em qualquer lugar, e que isso era perigoso. Não sei precisar quando mas, há bastantes anos, não durmo bem. Durmo poucas horas e não considero meu sono relaxante e revigorante o suficiente.
É verdade, também, que adoro acordar. Adoro minha rotina, a vida que é possível levar neste momento. Mas o que a noite esconde? Ou melhor, revela? Estou em busca dessa resposta há algum tempo… entre noites melhores e piores, posso dizer que só o estudo da psicanálise e a minha análise pessoal é que tem me dado suporte – tanto para entender quanto para suportar as verdades que tentamos evitar.
Essa é um pouco da minha questão em relação ao sono. Mas o que faz com que 72% dos brasileiros, 40% da população mundial, sofram de alterações do sono? Uma citação de Paul Valéry, de quase 100 anos atrás, presente no livro “A erótica do sono”, de Mario Eduardo Costa Pereira, nos traz a resposta enquanto sociedade:
“O progresso da insônia é notável e anda pari passu com todas as outras modalidades de progresso”.
Ainda que esse seja um sintoma de uma sociedade, colocar em palavras esse brevíssimo texto sobre minha experiência pessoal já me ajuda a compreender muitas coisas, de um ponto de vista novo. Colocar-se em palavras e dar-se à escuta é o mais poderoso dos recursos – talvez o único eficaz em uma sociedade cada vez mais medicalizada e com um progresso que nos leva cada vez mais perto do abismo.