Desde Platão, corpo e alma foram apartados e hierarquizados: alma, superior, corpo, inferior.
No final do século XIX, Freud questiona e se contrapõe a mais de vinte séculos de filosofia e medicina ao estudar os sintomas histéricos – dentre os mais marcantes, as manifestações corporais de afetos negados, de palavras recalcadas. Em oposição, o corpo da neurose obsessiva, alerta, tenso, constantemente ameaçado de ser tocado pelo significante.
Agora no século XXI, em tempos pós-pandemia, de redes sociais, hiperconectividade, home office e EAD, nunca o laço social esteve tão afetado. Os encontros acontecem cada vez menos e até surgiu uma nova expressão – “relações de baixa manutenção” -, onde não é preciso o contato, a proximidade, a voz, o corpo. Acreditar que possa prescindir do corpo é condenar-se ao sofrimento. É no encontro com o outro, com o corpo do outro, que nos estranhamos, que nos incomodamos – que nos faz sair dos cômodos em que nos protegemos e, ao mesmo tempo, deixamos de viver plenamente.
Psique e corpo são interligados pela palavra. Qualquer tipo de terapia, filosofia, medicina, meditação, intervenção que diga o contrário, fracassa de saída. De Platão a um gesto à pele, é no discurso e no corpo que o sujeito sofre e goza.