“No princípio era o Verbo”, começa o evangelho de João.
“ E o Verbo estava com Deus,
e o Verbo era Deus”.
De que ‘verbum’ (‘palavra’, em latim), ele fala?
Para haver algo, é preciso que antes algo não houvesse; para haver luz, é preciso que antes houvesse as trevas.
Mas não é nessa quadrada lógica aristotélica que o inconsciente funciona. Para este, não existe a negação, não existe o princípio da não-contradição, não existe conflito. Coexistem amor e ódio, dentro e fora, ativo e passivo, masculino e feminino, ausência e presença, luz e trevas, vida e morte. Tudo é realizado, nada é contradito, nada é interdito.
Ao ingressarmos no mundo do verbo, encontramos na negação uma ponte para a cultura, para a vida em sociedade. É na imersão no jogo das trocas simbólicas (de lógica própria, predeterminada e não completamente depreensível), que o conflito se instaura e que diferentes tipos de negação (de)formam o nosso lugar nas relações. Esconder o conflito desse sujeito dividido entre o sim e o não, desmenti-lo ou simplesmente excluí-lo são as soluções que encontramos para estar no mundo de uma maneira possível.
No princípio era o Não.
Transitar nessa ponte de palavras em diferentes mundos, em diferentes direções, é o que uma análise propõe.