Estamos muito familiarizados com a noção de sintoma da medicina. Para esta, ele é um sinal do mau funcionamento orgânico do corpo. Exames de sangue e imagens seriam capazes de detectar esse “erro” e, então, um tratamento seria determinado, podendo levar ou não à cura, ou ao alívio do tal sintoma.

Para a psicanálise, sintoma é uma outra coisa: é uma mensagem cifrada dos nossos conflitos psíquicos inconscientes, entre nossos desejos, necessidades e censuras.

Mas como se chegou a tal ideia?
A psicanálise nasce no final do século XIX justamente porque a medicina não dava conta de explicar, de curar ou aliviar sintomas físicos que se manifestavam em pessoas que não possuíam necessariamente um desequilíbrio orgânico. Tantas vezes, ao “curar” um sintoma, outro logo aparecia – podendo ser até pior do que o anterior.

Freud, então médico neurologista, reconhece a insuficiência da medicina diante desses fenômenos que eram físicos, mas não orgânicos, e, ao escutar suas primeiras pacientes e a de colegas, entende que há algo para muito além do biológico, que nasce da interação com o social através da linguagem. Sim, nós também adoecemos de palavras. E nos curamos através delas também.

Logo, o sintoma para a psicanálise é um enigma que carrega um valor de verdade – a verdade do desejo e das necessidades do sujeito. Ele foi a melhor forma encontrada (acredite!) para dar conta desse sofrimento e da necessidade de satisfação. Logo, não convém necessariamente eliminar um sintoma, mas sim decifrá-lo, entendê-lo, elaborá-lo, falar sobre ele, fazer algo com ele, assumi-lo como próprio.

Tantas vezes a intervenção médico-farmacológica para o sofrimento psíquico é necessária, mas ela não “cura” – vide os altos índices de pessoas medicalizadas por toda uma vida e a manutenção dos altos índices de sofrimento psíquico.

A palavra “sintoma” significa “cair junto”, “acontecer junto”, carregando em si a ideia de conflito. Ora, é possível uma vida sem conflitos? Não, mas podemos reconhecê-los e criar soluções singulares para convivermos com eles de forma mais coerente e pacificada dentro de nós.

Compartilhe este post