Mais de um terço da população mundial relata dificuldades relacionadas ao sono, seja para começar a dormir, sustentar o sono ao longo da noite ou mesmo de relaxar. Não por acaso, entre os livros aqui apresentados, esse despertou o interesse imediato dos seguidores, demonstrando, talvez, uma urgência em relação a algo que parece tão natural, instintivo, mas que estamos individual e socialmente perdendo a capacidade de fazer de maneira satisfatória.
Mães, pais ou quaisquer pessoas que tenham cuidado de um bebê sabem que é preciso ensiná-lo a dormir. Tantas vezes se fala: “essa manha é sono”, “quer dormir e fica chorando…”. Então vem o balanço, os barulhinhos, o cafuné e as cantigas de ninar que embalam o sono infantil em um cenário amoroso, em que a garantia de segurança dada por um cuidador permitia o relaxamento e a entrega ao mistério que é a escuridão da noite e o dormir.
No entanto, do “dorme, dorme” que se ouvia quando criança, vamos ao Trabalhe enquanto eles dormem, Banco 30 horas, A cidade que nunca dorme, Nunca desliga…
Para a sociedade atual, dormir não é viver; dormir é visto como uma ferramenta, um recurso que precisa ser “otimizado” para a performance de viver: produzir, consumir e competir. Dormindo o mínimo possível, com o máximo de restauração desse corpo-máquina, constituído apenas por reações químicas e fisiológicas. Nessa sociedade, dormir vira performance também – vide os relógios que aferem a quantidade e a qualidade do sono, bem como os fármacos indutores de sono tão populares, tudo sem envolver o menor gozo de dormir.
Como descansar em um tempo em que o dormir é esvaziado de sua dimensão erótica (ou seja, das relações amorosas e pulsionais que se estabeleceram ao entregar-se ao sono e desfrutar do relaxamento do próprio corpo) e é tomado pela dimensão patologizante das esferas política e econômica contemporâneas? E, ainda, como lidar com essa condição tão humana diante do desamparo? Cidades, casas e instantes cada vez mais iluminados, sejam por uma lâmpada ou por uma tela de celular, para aplacar o Isso que a escuridão revela.
Com prólogo, epílogo e seis artigos reunidos, Mario Eduardo Costa Pereira, psiquiatra, psicanalista e professor da Unicamp, discorre no livro sobre esse “sintoma” atual que é a insônia e sua relação com a cultura sob a óptica da psicanálise, bem como a economia libidinal que envolve o dormir. Para ilustrar sua tese de que, ao dormir, o sujeito é chamado a existir e a lidar com a “hora da verdade”, o autor analisa lindamente desde cantigas de ninar até alguns clássicos de Shakespeare (Hamlet, Macbeth e Henrique V).
Mas o que seria “existir” e lidar com “a hora da verdade”?
De acordo com o autor, seria desprender-se da realidade e do Eu, construídos imaginariamente, e ter de lidar com algo que gera angústia: desejos, perguntas sem respostas, dúvidas, incertezas em relação ao que foi e ao que será, decisões que precisam ser tomadas, mesmo frente ao vazio e à falta de sentido.
É com isso que a psicanálise trabalha. Não por acaso, sua obra inaugural é o livro de Freud A interpretação dos sonhos (ou do sonho, dependendo da tradução), em que o sonho é considerado a via régia de acesso ao inconsciente, que revela os desejos, a verdade, mas que a consciência e a realidade lutam para censurar e manter obscuros.
Em tempos como o que vivemos, fazer-se dormir é um ato de resistência; sonhar, então, um ato radical de erotismo, de amor à vida.
Sugestão de filme sobre o tema: Insônia, de Christopher Nolan.